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Johann Sebastian Bach - 1685-1750

"Em todo ato de criação existe algo de milagroso. Algo novo surge no mundo. Anna Magdalena, a segunda esposa de Bach, expressou esse fato em palavras singelas: "Tal música não existia no mundo antes que ele a escrevesse". O ser humano criativo é portador desse milagre, ao qual não se podem aplicar leis físicas. As circunstâncias de sua vida, seu caráter, seu destino influenciam sua obra..."
A Vida de Bach
Johann Sebastian Bach nasceu em 21 de março de 1685 em Eisenach, uma pequena cidade-residência da Turíngia (a 80 Km. da cidade natal de Haendel, um mês depois deste) aos pés do Wartburg, uma localidade onde se teria realizado um lendário encontro de minnesünger por volta de 1207, e onde Lutero traduziu a Bíblia para o alemão no ano de 1521.
O pai Ambrosius Bach, que era violinista e "músico municipal" em Eisenach, ensinou o menino a tocar os instrumentos de corda, ao passo que o tio Johann Christoph, excelente compositor e organista na mesma cidade, iniciava-o no órgão.
Ainda bem criança, Johann Sebastian fez parte do coro. Aos nove anos estava órfão de pai e mãe. Foi seu irmão mais velho, organista em Ohrdruf, que se encarregou de sustentá-lo, ensinando o menino a tocar cravo e a compor.
O gênio de Bach cresce do maciço montanhoso, para cuja estatura respeitável contribuíram inúmeros organistas, cantores, compositores, mestres-de-capela da Alemanha por volta do ano de 1700. Bach passou sua juventude inteiramente sob o signo da música. Esta constituía o tema da conversa cotidiana na casa paterna e formava o núcleo dos "dias de família", quando os Bachs da região circunvizinha se reuniam e, após as refeições, inventavam cânones e tocavam alegremente seus instrumentos.
Os temas musicais eram passados uns para os outros assim como se brincassem com a bola, e, na brincadeira, cada um inventava um mote, que era imediatamente executado com todas as variações possíveis. Uma melodia sacra era reinventada com novo texto, que estaria associado com o motivo do encontro familiar, e num piscar de olhos improvisava-se uma fuga polifônica, como se fosse a coisa mais natural do mundo.
A música era para os Bachs um ofício saudável, praticado constantemente a fim de manter bem alto o padrão da profissão de músico. Se a isso viessem de acréscimo idéias criativas, agradeciam a Deus como uma dádiva do céu, e punham o máximo empenho na sua elaboração e aperfeiçoamento, e ninguém se julgava por isso um ser "eleito", algo especial ou ainda um "gênio". Era compreensível que Johann Sebastian tocasse violino e cravo desde a mais tenra idade. Aos nove anos, perde a mãe e, um ano depois, o pai, sendo criado por um irmão mais velho, Johann Christoph (1671-1721), na vizinha Ohrdruf.
Toda a vida de Bach transcorreu em um espaço geograficamente estreito. Aos quinze anos, já é considerado um músico formado, que domina, além de outros instrumentos, notavelmente o órgão. Este o interessa sobremaneira, pois sobrepuja a todos os outros instrumentos em riqueza e abrangência sonora e possibilita infinitas formas de improvisação. E improvisar constitui metade da existência do músico daquela época.
A adolescência de Bach tem qualquer coisa de admirável. Uma espécie de instinto parece impeli-lo incessantemente, sem hesitação, não apenas no sentido de um conhecimento sempre mais amplo como de um desenvolvimento moral de adulto. Um dos maiores e mais fecundos músicos de todos os tempos, Bach não mostrava nenhuma das irritantes excentricidades que passam geralmente por fazer parte do "temperamento artístico". Era sossegado e digno, mas por outro lado bondoso, piedoso, leal aos amigos e dedicadíssimo à sua família.
Antes de procurar um emprego, Bach percorre a pé inúmeras localidades, como era costume na época. Assim o encontramos em abril de 1700 em Lüneburg, a trezentos quilômetros de distância, onde é aceito na Michae-lisschule (São Miguel de Lüneburg) onde eram acolhidos jovens pobres com alguma formação musical. Em troca de cantar na igreja que tinha o mesmo nome da escola, o jovem recebeu alí uma sólida educação, com aulas de retórica, latim e grego, lógica, teologia e, naturalmente, música e se engaja no coral da escola.
Em 1701 visita também a vizinha Celle, onde se cultiva a música orquestral francesa no palácio barroco, onde Bach teve contato com a arte e o modo de vida franceses, graças às figuras dessa nacionalidade que rodeavam a duquesa de Brunswick-Lüneburg, ela própria de origem francesa e possui uma rica biblioteca musical: Couperin, com quem Bach mantém correspondência (infelizmente perdida); Grigny, de quem copia o livro de órgão; Marchand, que encontrará em Dresde, em 1707...
Na corte italianizante de Weimar, copia, totalmente, as fiori musicali de Frescobaldi, reproduz temas de fuga à Corelli, Legrenzi e Albinoni, copia numerosas sonatas e concertos italianos e, sobretudo, tem a revelação dos concertos de Vivaldi que representam o estado mais avançado da música instrumental.
Não se contenta em copiá-los, arranja alguns para instrumentos de tecla: pelo menos sete, só para cravo, um para quatro cravos e cordas (originariamente para quatro violinos), três para órgão. Copia também os mestres de canto, de Palestrina a Caldara, e faz longas caminhadas para ouvir os grandes organistas alemães: Reinken; Buxtehude e Böhm.
Copia as peças que mais lhe agradam; um músico necessita cultivar muitos talentos, pois nunca se sabe onde irá precisar deles um dia. Bach deixou-nos, no total, vinte e duas transcrições, sendo dezesseis só para cravo, cinco para órgão e o concerto para quatro cravos. Durante muito tempo , os originais foram todos atribuídos a Vivaldi. Ora, vários são do jovem Johann Ernst, sobrinho do duque de Weimar , outros são de Alessandro e de Benedetto Marcello, um de Telemann e outros não podem ainda ser identificados.
Em Hamburgo, assiste a um recital de órgão do octogenário Jan Adams Reinken e nota, então, que ainda lhe falta muito estudo. O teatro, em voga nessa cidade, não o atrai. Aos dezoito anos, dá seu primeiro passo para entrar na vida profissional. Torna-se violinista da orquestra de um dos príncipes de Weimar, mas no mesmo ano ainda, em 1703, troca esse posto pelo de organista na pequena cidade turíngia de Arnstadt.
Aprendeu francês - a língua do mundo do espetáculo, da dança, da música de Lully - e mais tarde entrou em contato com os organistas do Norte da Alemanha. Depois, com ajuda da família Bach, fez sensação em Arnstadt, onde havia uma vaga para organista. Foi contratado sem fazer concurso em 1703, com apenas dezoito anos.
Ele parece estar sempre dotado de uma maturidade superior à de sua idade, que guia suas escolhas de maneira infalível. E, do fundo da Alemanha, ele descobre a cultura francesa sem sair da tradição alemã. Começa a se esboçar um ritmo de vida que depende, mesmo em períodos irregulares, da troca de um emprego secular por um clerical. Após dois anos de atividade como organista em Arnstadt, Bach pede licença para prosseguir seus estudos.
A Itália vem até ele com a música de Frescobaldi. E há o apelo dos organistas do Norte - Georg Böhm, o velho Reinken e, finalmente, Buxtehude. Para ouvir este último, Bach chegou mesmo a cometer uma estranha fuga: pediu quatro semanas de licença e acabou ausentando-se por quatro meses.
Põe-se novamente a caminho para uma peregrinação musical até a cidade hanseática de Lübeck. Nessa cidade, o renomado organista Dietrich Buxtehude reúne uma grande multidão de ouvintes para seus recitais de "música vespertina". Bach acredita ter entrado em um mundo maravilhoso, pois jamais escutara tal mestre nem tal órgão. Quando ele finalmente reaparece em Arnstadt, as autoridades clericais têm não poucos motivos para se indispor contra ele.
Bach ultrapassara bastante seu período de licença, o que não se podia negar; além disso, ele estaria "confundindo os fiéis" com suas complicadas improvisações de prelúdios corais, no que provavelmente divergiam as opiniões; e na galeria do órgão ele teria tocado não poucas vezes em companhia de uma "jovem estranha". Era sua prima Maria Bárbara, com quem logo se casaria. Rompeu seu contrato tão logo surgiu outra vaga de organista, dessa vez em Mühlhausen, E Bach despediu-se, então, de Arnstadt.
Em abril de 1707, em Mühlhausen (também na Turíngia), também o admitiram depois de uma audição, sem concurso e para onde se mudou alguns meses depois a fim de assumir o cargo de organista local. Entretanto, logo surgem divergências com as autoridades religiosas da comunidade.
Casou-se aos 22 anos com a prima Maria Bárbara Bach. Sua fama já era grande. Compôs obras para órgão nesse período, somente interrompido por uma prolongada visita ao venerável Buxtehude, em Lübeck. Trocou Mühlhausen pela corte de Weimar, com as funções de organista, violinista e compositor, mudando de meio social por muitos anos. Era, agora, músico "de corte" e não mais músico municipal ou de igreja - ainda que suas funções fossem, em parte, ligadas à música religiosa. E em fins de 1708, Bach muda-se para Weimar, desta vez como cravista e violinista, como organista de corte e, finalmente, como spalla do palácio do príncipe-regente.

Orgão construído por Bach - Museu de Armstadt
Embora se tivessem passado apenas cinco anos desde seu início na mesma cidade, sua competência e sua colocação haviam progredido bastante. Uma década repleta de trabalho estendia-se diante dele. Estava a serviço de um príncipe, não de uma municipalidade ou de uma paróquia. Isso era uma promoção para ele, mas, de certa forma, uma ruptura com sua tradição familiar. Esse tempo que Bach passou em Weimar (1708 a 1717) trouxe-lhe, por outro lado, um enriquecimento musical considerável. Trouxe tensões, também.
O duque que estava no poder era de trato difícil. Bach sentia-se mais atraído por seu sobrinho e herdeiro, o príncipe Wilhelm Ernst, melômano apaixonado. Não tardaram a surgir dificuldades. Chegaram mesmo a confiná-lo por um mês, durante o qual compôs o Orgelbüchlein [Pequeno livro do órgão]; passado esse episódio, conseguiu permissão de deixar Weimar por uma outra corte, a do príncipe Leopold d'Anhalt Kõthen (1717-1723).
Quando, no ano de 1717, decide ir para Kóthen, a fim de assumir o posto de "mestre-de-capela da corte e diretor de música da Câmara Real" ; o duque de Weimar recusa seu pedido de demissão. E, ao reiterar com insistência o pedido, Bach é posto na prisão por um mês por conduta agressiva e insubordinação. Não foi, contudo, um castigo demasiadamente severo, em que pese o agravo moral e a impossibilidade de se reunir imediatamente à sua família, que já se mudara para Kôthen. Bach aproveitou o "descanso" forçado de quatro semanas para trabalhar no seu Pequeno Livro de Órgão (Orgelbüchlein). Depois, seguiu para Kôthen, capital de um dos principados de Anhalt.
Os cinco anos passados por Bach em Kõthen foram provavelmente os mais felizes de sua vida, apesar da perda que sofreu com a morte de Maria Barbara em 1720. O príncipe era inteligente, aberto, agradável, músico (tocava viola melhor do que um simples amador). Reunira a melhor orquestra da Alemanha (dezessete músicos, muitos dos quais virtuoses famosos).
Bach gozava não somente de uma real consideração e de bom salário, mas de verdadeira amizade por parte de Leopold e dos que o rodeavam. Essas condições ideais para um artista (ter à sua disposição todos os meios de criar, e saber que sua obra é compreendida e apreciada... que artista não sonhou com isso?) iriam permitir a Bach uma produção abundante. Concertos, sonatas (quase toda a sua música de câmara data dessa época), o cravo bem temperado, as suítes e partitas, as aberturas para orquestra...
Brandemburgo era uma potência alemã, cujo prestígio atingia todas as camadas da população. A marcha do Brandemburgo, significava tornar-se grande potência alemã, e, em seguida européia. Em seis anos nessa localidade, surgiram os Concertos de Brandemburgo. Foi o "mais profano" de seus empregos oficiais. E uma época de rica produção de música profana (assim chamados por terem sido escritos para o filho do grão-duque Christian Ludwig von Brandenburg), Os concertos para violino, o concerto para dois violinos, O Cravo Bem Temperado, para o qual é necessário acrescentar algumas palavras explicativas.
Não se passara muito tempo desde que (em 1691) o organista e teórico de música Andreas Werckmeister (1645-1706) exigira o "temperamento de flutuação idêntica"; ou seja, a divisão da oitava em doze intervalos sonoros perfeitamente idênticos, chamados de semitons ou meios-tons. Com isso, praticava-se alguma violência contra as freqüências; prestava-se, porém, um serviço inestimável para a prática da execução musical. Na Europa, desconhecia-se ou já se esquecera o fato de que os árabes tinham, séculos atrás, conhecido e desenvolvido essa teoria e lutado por ela. Bach tentava agora utilizar de uma forma prática essa identidade de todas as tonalidades. À medida que Bach compunha uma peça musical, respectivamente, para cada escala em tom maior e em tom menor, portanto 24 ao todo, ele comprovava a utilidade do conjunto das tonalidades; e além disso, apresentava ainda uma obra-prima inspirada; produziu, ao lado do feito teórico-musical, composições magníficas.
Aqui se manifesta a competência especial de Bach, de unir os objetivos pedagógicos às metas artísticas. Isso se torna também evidente no Pegueno Livro de Teclado (Klavier-Büchlein), escrito em 1720 para seu filho Wilhelm Friedemann, na época com dez anos de idade, e em Pequenos Prelúdios e Fugas (Kleine Prdludien und Fugen), escrito para servir a objetivos de estudo geral.
Muitas peças de música de câmara surgem em Köthen, pois o jovem príncipe Leopoldo ama não só a música, como "também a compreende", conforme as palavras de Bach. Sua obra se enriquece com uma grande quantidade de peças, certamente tocadas experimentalmente no palácio, peças para violino, violoncelo, flauta, cravo, viola da gamba (bastante apreciada na época) e a viola pomposa, inventada por Bach, uma espécie de fusão entre viola e violoncelo.
Em Kothen, Bach trabalha também em sua primeira versão musical da Paixão, para a qual escolhe como modelo o texto de São João Evangelista. Apenas para seu instrumento preferido, o órgão, este período em Köthen, tranqüilo e feliz, dava poucos resultados. Era já nessa época um organista de renome. Até mesmo Telemann escreveu uma vez: "Ninguém supera a Haendel ao órgão, com exceção, talvez, de Bach".
E quando Bach, em 1717, vai para Dresden aceitando um convite para um duelo musical com o conhecido virtuose do órgão, o francês Louis Marchand (1669-1732), a tão esperada competição não chega a se concretizar: conta-se que Marchand partira discretamente pouco antes da realização do desafio marcado.
No verão de 1720, morre a esposa de Bach, mãe de seus sete filhos. A perda da esposa provavelmente contribuiu para que Bach pensasse em deixar a cidade; ele sentia saudade sobretudo do seu amado órgão. Mas as negociações com Hamburgo malogram, e o desejo de ir para uma esfera de atividade de maior porte permanece irrealizado durante mais alguns anos.
Em dezembro de 1721, casa-se com Anna Magdalena Wilcken, cantora da corte e filha de músicos de Weissenfels. Trata-se novamente de um casamento excepcionalmente feliz. Bach encontra em Anna uma companheira amável e em tudo compreensiva, além de entendida em questões musicais. E a quantidade de crianças que alegraram a casa de Bach e a encheram de música aumenta agora com mais treze.
Manifesta-se, contudo, nesse período, uma insatisfação; e é por onde se pode medir o domínio exercido, consciente ou inconscientemente, pela tradição familiar. O príncipe Leopold era calvinista e, em Köthen, a música religiosa não tinha qualquer participação no culto. O papel de Bach era, portanto, exclusivamente profano. Ao que parece, Bach teria sentido fortemente - em parte, talvez, por influência da perda de Maria Barbara - a necessidade de voltar a trabalhar para a igreja, como sempre o haviam feito seu pai e seus antepassados. Tentou, de início, conseguir um lugar como organista em Hamburgo. Até que apareceu a ocasião, como cantor na Thomasschule [Escola de Santo Tomás] em Leipzig.
Bach mudou o curso de sua vida e renunciou a todas as vantagens adquiridas. Por um salário menor, escolheu o posto de Leipzig, repleto de inconveniências que não demoraram muito a tornar-se insuportáveis. Em 26 de março de 1723 Bach entra em contato com a cidade musical de Leipzig, seu futuro e mais duradouro local de trabalho.
Leipzig
A Escola de Santo Tomás de Leipzig era uma dessas antigas instituições como tantas criadas pela Idade Média e, na Alemanha, pela Reforma. Meio orfanato, meio conservatório, estava estreitamente inserida na vida da igreja e na da cidade.














