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A Emergência e o Campo da Teoria Organizacional

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Por Guilherme Said

A teoria organizacional busca desenvolver um arcabouço de estudos e análises relacionados às organizações modernas. O surgimento dessa teoria, da administração como ciência, deu-se em meio a um conjunto de mudanças econômicas, sociais e tecnológicas em efervescência na segunda metade do século XVIII. Os novos paradigmas como a divisão do trabalho ressaltado por Adam Smith em 1776, o florescimento do comércio, o crescimento das cidades, a urbanização, o mercado em expansão e o aparecimento de novas tecnologias como a máquina a vapor, são alguns dos aspectos essenciais que favoreceram o nascimento da Revolução Industrial e, consequentemente, o campo da Teoria Organizacional.

Diversas pesquisas foram realizadas para tentar explicar as razões do surgimento dessa revolução na Europa ocidental. Landes (1994) oferece uma visão bastante ampliada dos acontecimentos e mudanças que ocorriam naquele continente a partir do fim da baixa idade média, os quais parecem explicar a sua vantagem na criação da moderna indústria. Os principais pontos ressaltados pelo autor são a revolução científica, a ânsia de dominação das leis da natureza, o materialismo, o espírito de racionalidade, a abertura para o aprendizado, o estímulo a competição – já que o continente estava dividido em Estados nacionais – e o conteúdo ético do protestantismo, que levou ao pragmatismo e à disciplina e a adoção de novas tecnologias.

Outros aspectos não muito éticos (perversos?) também colaboraram com o desenvolvimento inicial da revolução industrial no antigo continente. São eles: a exploração de territórios coloniais, os metais e pedras preciosas retirados das terras “conquistadas” e o comércio de escravos. Essas ações favoreceram de certa forma a acumulação de capital pelos países europeus, o que seria fundamental para a construção das novas estruturas de produção. 

Com as novas tecnologias em ascensão a partir do século XVIII, acelerou-se a fusão das pequenas oficinas domiciliares em grandes fábricas com centenas de operários reunidos. Surge nesse momento a necessidade de racionalização do trabalho, em prol da produtividade e da geração de lucros. Era preciso a partir de então, como destaca Garcia (1981), “uma clara e efetiva política gerencial e técnicas racionalizantes do trabalho, a fim de se obter lucros e, portanto, remuneração do capital investido”.

Evidentemente, o novo paradigma trouxe inúmeras conseqüências para os novos industriais e a massa humana proveniente principalmente dos campos e pequenas cidades. Novos métodos de direção, como a centralização dos operários em uma ferrenha disciplina, seriam objetos de muitos estudos e críticas de cientistas sociais, psicólogos e historiadores. 

Foucault (1987, p. 132) faz uma observação bastante fiel do novo modelo de organização presente nas novas estruturas produtivas, em que ele diz:

“Nas fábricas o princípio do quadriculamento individualizante se complica. Importa distribuir os indivíduos num espaço onde se possa isolá-los e localizá-los; mas também articular essa distribuição sobre um aparelho de produção que tem suas exigências próprias. É preciso ligar a distribuição dos corpos, a arrumação espacial do aparelho de produção e as diversas formas de atividade na distribuição dos postos.”

O início da revolução industrial trouxe ainda novas formas de exploração de trabalhadores. Via-se homens, mulheres e crianças trabalhando de quatorze a dezesseis horas em condições sub-humanas. Huberman (1959) destaca o exemplo de uma fábrica na Inglaterra, em que “os fiandeiros trabalhavam 14 horas por dia numa temperatura de 26 a 29°C, sem terem permissão de mandar buscar água para beber”. Estavam ainda sujeitos a penalidades e multas caso assobiassem, deixassem a janela aberta ou tomassem banho no trabalho. 

É nesse contexto que surgem iniciativas mais aprimoradas com o objetivo de tornar a fábrica altamente produtiva através de métodos de controle dos fatores de produção e da administração das pessoas.

Garcia (1981) cita, por exemplo, o caso do empresário Robert Owen, que procurou equilibrar a relação máquina x homem, desenvolvendo métodos de administração industrial voltados para o controle de produção, ao mesmo tempo em que buscava melhorar as condições de trabalho, através da gestão participativa e do oferecimento de benefícios que consideravam os outros aspectos do homem moderno como a educação, moradia, saúde e estabilidade.

No entanto, o século XIX viu um grande desequilíbrio entre capital e trabalho, em que o ambiente organizacional foi se tornando cada vez mais hostil para os trabalhadores, enquanto as demandas do mercado e os lucros aumentavam de forma exponencial. Dessa forma, os empresários observaram a grande dificuldade em aumentar a produtividade da indústria, por meio de pessoas eficientes, capazes de assimilar as novas tecnologias e de se adaptarem à disciplina da fábrica.

Observava-se a necessidade de uma ciência administrativa, de um modelo gerencial, a fim de que as variadas demandas da organização fossem atendidas. A dura disciplina e as más condições de trabalho nas fábricas não conseguiriam perdurar, frente a expansão dos mercados, ao crescimento demográfico e ao desenvolvimento das novas tecnologias.

Dessa forma, na primeira metade do século XIX, uma ciência administrativa foi se esboçando, em decorrência das demandas das organizações que se tornavam cada vez mais concentradas e complexas. Era imperioso formar e gerenciar uma força de trabalho estável, capacitada e experiente e implantar técnicas administrativas que atendesse as demandas de recrutamento e treinamento de pessoal, estabelecimento de relações industriais, remuneração, controle da produtividade e provisão de saúde, habitação e educação para a nova classe trabalhadora.

Na segunda metade do século XIX o mundo presenciou importantes acontecimentos no âmbito da economia, política e das organizações. Novas invenções e a consequente evolução dos transportes e comunicações proporcionaram uma maior internacionalização da economia. Um novo imperialismo estava em expansão, com as potências mundiais buscando matérias-primas e mercados. Enquanto isso, corporações se fundiam, formando grandes grupos empresariais cartelizados.

É nesse contexto, no final do século XIX, que surgem as primeiras pesquisas de Frederick Taylor e a posterior conformação da chamada Administração científica, baseada em alguns princípios: o estudo sistemático do trabalho, visando descobrir o método mais eficiente de executar cada tarefa; a especialização máxima do trabalho; a premissa do Homem economicus, que possui o foco em maximar os seus ganhos financeiros; a seleção científica e o desenvolvimento progressivo do trabalhador e a constante e íntima cooperação de gestores e trabalhadores visando a produtividade a eliminação de conflitos.

Henri Fayol foi outro expoente do início do século XX que veio consolidar a administração como ciência, construindo então a Teoria clássica da administração. Fayol desenvolveu a definição e os princípios da gerência e detalhou as cinco funções da gestão: planejar, organizar, comandar, coordenar e controlar. 

Fayol e Taylor podem ser considerados os pais da moderna ciência da administração e suas pesquisas serviram de base para o desenvolvimento da teoria das organizações, influenciando centenas de estudiosos no decorrer do século XX.

REFERÊNCIAS

C.; NORD, W. (Org.). Handbook de estudos organizacionais. Vol. 1. São Paulo: Atlas, 1998. P. 27-57.
FOUCAULT, M. Vigiar e punir. Petrópolis: Vozes, 1987. (3ª. Parte, cap. 1)
GARCIA, F.C. Repesando o paradigma taylorista na ciência administrativa: um ensaio sobre os primórdios da racionalização do trabalho. Belo Horizonte: CAD, 1981 (Tese para Professor Titular da FACE-UFMG). (Cap. II)
HUBERMAN, L. História da riqueza do homem. Rio de Janeiro: Zahar, 1959.
LANDES, D.S. Prometeu desacorrentado. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1994. (Cap. 1 – Introd.)
PUGH, D.S.; Hickson, D. J. Os teóricos das organizações. Rio de Janeiro: Qualitymark, 2004.

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Guilherme Said é consultor, professor e Administrador de empresas, com MBA em Gestão Empreendedora e Mestrando em Administração e Controladoria pela UFC/CE.

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